Cantiga do Soldado


Eu hei d’ir de Serra em Serra
Nossa Bandeira mostrar;
Havemos de ser na terra
O que já fômos no mar.

Ninguém me peça que fique
Que eu não quizera ficar;
Sol que brilhaste em Ourique
Tornas de novo a brilhar.

Hei-de levar ao meu lado
A guitarra sensual
Que vencer cantando o fado
E’ fado de Portugal

O’ soldados, a Ventura
Ha de ser nossa irmã;
Que depois da noite escura
Nasce o sol pela manhã.

Já diviso os arreboes
D’ um sol distante que vem
Mostrar que netos d’heroes
Hão de ser heroes também.

E se eu morrer não se zangue
Minha mãe… não leve a mal;
Tem sido feita com sangue
A história de Portugal!

Vou partir, vou para a guerra,
A todo o mundo mostrar
Que havemos de ser na terra
O que já fomos no mar!

Lisboa, Janeiro 1915 – Manuel A. F. de Barros