O Infante


Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Fernando Pessoa – Mensagem

Anúncios

A tristeza lusitana


A tristeza lusitana
Embala-a o choro do mar
E às vezes tem um sorriso
Irmão-gémeo de chorar.

Tristeza antiga
Tristeza amiga
Do nosso luar.

Tristeza de Portugal
Baixo e terno soluçar
A tristeza que é só nossa

Tristeza nossa
Nem por flores, nem riquezas,
Nem por prendas sem igual
Ninguém trocar-te quisera
Tristeza de Portugal

Nossa somente
Doce mal
Só de quem sente
Mais suavemente
Que outro qualquer.

Tristeza como a tristeza
D’algum leve passarinho
Que chora co’o coração
E aos pobres diz “coitadinho”

Tristeza imensa
Terna e intensa
Do Algarve ao Minho.

Tem saudade, e saudades
Só as sente e mais ninguém
Quem tem aquela palavra
Para dizer que as tem

O povo de Portugal
Doa ou não ao seu mal
Só ele o conhece bem.

Ó mar que morres na praia
Acasos mortos no mar
Talvez que cantar cuideis
A alma do nosso penar.

Não sabeis, não o sentistes
Lágrimas, dores e tristezas
Só nós sabemos chorar,

A tristeza lusitana
Ninguém fala nela, não
Senão nós que a sentimos
Em lugar do coração.

O nosso amor
O nosso ardor
Tristeza são.


Fernando Pessoa