A Olivença, a perdida


Fiel ao ao sangue, nossa irmã germana,
chora Olivença as suas horas más
junto do rio que tornou atrás,
quando soou a trompa castelhana.

Ó Casa de Antre Tejo-e-Guadiana
lembra-te dela que entre ferros jaz
Não a dobrou a guerra nem a paz,
– fiel ao sangue, o sangue a ti a irmana!

E todo aquele em quem ainda viva
o ardor da Raça e a voz que nele anseia,
se for p’ra além da raia alguma vez,

é Olivença, nossa irmã cativa
lá onde com surpresa a gente alheia
oiça dizer adeus em português!

António Sardinha – Epopeia da Planície

Letreiro


Tudo o que sou o sou por obra e graça
da comoção rural que está comigo.
Foi a virtude lírica da Raça
a herança que eu herdei do sangue antigo.

Foi esta voz que em minhas veias passa
e atrás da qual, maravilhado eu sigo.
Como um licor de encanto numa taça,
assim se quer esse condão comigo.
Olhai-me: – Eu vim de honrados lavradores.
De avós e netos, sempre os meus Maiores
fitaram o horizonte que hoje eu fito.
“O que estaria além da curva estreita?”
– E da pergunta, a cada instante feita.
nasceu em mim a ânsia p’ra o Infinito

António Sardinha – A Epopeia da Planície